domingo, 8 de janeiro de 2012

As raizes medievais da europa - comentarios



Escrito por Jacques Le Goff, As raízes medievais da Europa (Editora Vozes. 2007) é uma ilustração detalhada do aparecimento e desenvolvimento, a qual traça, a infância e juventude da Europa tendo marco de inicio a Idade Média.

Ao atentarmos nossa atenção ainda mais para o titulo da obra veremos que raízes concorrem com o mesmo sentindo de gênesis, o inicio, pressupondo que a Idade Média seria a mãe e o pai da Europa e que as transformações ocorridas no ocidente medieval refletem ainda mais a identidade européia, ao mesmo tempo, logo em seu prelúdio, o autor nos coloca a Idade Media como uma transportadora das heranças clássicas do antecedente europeu: a herança grega, a romana, e a herança bíblica que não fora transmitida pelos judeus e sim pelos primeiros cristãos. Le Goff não trata a passagem do império romano para o período medieval como um acontecimento catastrófico, ele coloca essa transição como um processo de uma evolução gradual a qual lentamente começa surgir a Europa propriamente dita, onde se destaca o cristianismo como elemento fundamental norteador de uma cultura européia, percebendo a cristianização herdada do Império Romano tornando religião oficial em 380, ao comando do imperador Teodósio, faz com que a Idade Media torne-se caracterizada pela fé em Cristo e pelo controle da Igreja. Neste momento a personagem de Santo Agostinho ganha destaque no desenvolvimento do cristianismo. Ele defendeu a ortodoxia cristã em debates teológicos terríveis com hereges, nas controvérsias donatista. (SPROUL, 2002:59).

Agostinho conseguiu fazer uma síntese filosófica entre platonismo e cristianismo, porém sua obra não evidencia um sistema como tal. Suas reflexões sobre as áreas fundamentais da epistemologia, da criação do problema do mal e da natureza do livre-arbítrio são de importância permanente. Ele influenciou o desenvolvimento da doutrina da igreja da doutrina da trindade e da doutrina da graça combatendo todas as formas de ceticismo procurando estabelecer um fundamento para a verdade, Le Goff cita algumas obras mais importantes do filosofo padre, Confissões. Cidade de Deus e Cidade dos anjos, obras estas que fundamentaram para Idade Media uma regra monástica e racionaliza pela primeira vez a fé cristã.Com uma leitura mais apurada e detalhada da obra nos deparamos com um pequeno equivoco do autor ou um equivoco da editora. No capitulo I com o subtítulo Invasões e aculturação, no terceiro parágrafo, precisamente na página 39 encontramos o seguinte enunciado: “Depois da morte de Moisés em 632, os árabes e os convertidos ao Islã, os mulçumanos conquistaram de maneira fulminante a península arábica, (...)”. Neste capitulo o autor destaca a grande onda de acontecimentos ocorridos a partir do século III e chega até a invasão dos mulçumanos na Europa, aqui compreendemos melhor o equivoco, a personagem histórica destacada acima não seria a figura de Moisés e sim Maomé que tem sua data de morte em 632, evidentemente Moisés, o líder escolhido por Deus para libertar os israelitas da escravidão do Egito, é uma figura datada do período anterior a cristo. Além disso, logo após a morte do profeta Maomé a expansão continuou em duas direções. Uma delas voltada para o Oriente Médio, Pérsia e Índia e outra para o Norte da África. No ano de 711 os muçulmanos atravessaram o estreito que liga a África à Espanha. Em pouco tempo quase toda a Península Ibérica estava sobre o controle muçulmano, exceto uma pequena faixa de terra ao norte.

A construção da Europa ou tentativa de construção da Europa está às mãos de Carlos magno que assumiu o trono e por suas realizações é considerado como o mais importante dos reis francos, organizou um exercito forte, do qual faziam parte os grandes proprietários de terra, entretanto seu governo não tinha sede fixa às decisões mais impotentes politicamente eram tomadas no palácio de Aix-la-Chapelle, no noroeste da frança. Após a coroação de Carlos Magno a Imperador, a Igreja pretendia fazer reviver o Império Romano do Ocidente sob o comando de um monarca cristão. Ainda com sua pouca instrução o imperador fundou ao lado de cada igreja, escolas gratuitas para a população e nos mosteiros escolas para os sacerdotes abrindo também no próprio palácio uma escola que era freqüentada sem distinção de tratamento por meninas e meninos de famílias pobres e de nobres.
O plano político-administrativo e jurídico Carlos Magno assumiu o controle dos tribunais, padronizou o sistema de moedas e passou a fazer uso crescente dos documentos escritos. Seus administradores escolhidos geralmente entre a nobreza local eram escolhidos como marqueses e a outra categoria de nobres da confiança do imperador e os duques. Cada um deles tinha o poder de convocar e comandar pose exércitos de vários condados, com essa estrutura administrativa, Carlos Magno mantinha controle sobre todo o império, também procurava governar a Igreja exercendo autoridade sobre o papa: era ele quem praticamente escolhia os bispos e os empregava como simples funcionários do Estado. Neste ponto de vista, o Império Carolíngio nos parecerá um esforço notável. Mas em ultima analise falho. (LE GOFF. 2007: 54).
A projeção do culto mariano é um grande cargo de destaque na Idade Média. Segundo o autor este movimento começa a ganhar espaço no século XI nas crenças e nas praticas do ocidente cristão. Parece-me que nestas condições a Virgem alcança um status superior excepcional. Vejo nela uma espécie de quarta pessoa da trindade (LE GOFF. 2007; 113).O culto a Virgem Maria está associado à defesa da virgindade. Relativamente a Maria, tanto Oriente como Ocidente celebram-na como festa da nova Eva, virgem obediente e fiel que se torna por obra do Espírito Santo, Mãe de Deus, mas também verdadeira Mãe dos vivos, verdadeira Arca da aliança e verdadeiro Templo de Deus; memória de um momento culminante do dialogo de salvação entre Deus e o homem e, comemoração do livre consentimento da Virgem e do seu concurso no plano de redenção. (FLORES. 2006; 125), com a maior aceitação do mistério cristão as leituras feitas do antigo e novo testamento buscam ainda mais a evidência da virgem Maria como agente e testemunha singular da encarnação expandindo o intimo em expressões de glorificação a Deus, de humildade, fé, esperança, no qual ressoa profeticamente antecipada, a voz da Igreja.

Ao analisar o culto a Maria o autor nos prende em uma intrigante questão, se o reverenciado culto a virgem modificou a condição terrena da mulher? Para o mesmo, a imagem da virgem torna-se como salvadora e redentora dos pecados, contrário a Eva a qual se tornou responsável pela entrada do pecado no mundo muito distante do ideal da Virgem, criada pela Igreja, considerada a agente de Satã, responsável pela desgraça do homem, e por desviá-lo do caminho da salvação.
A perseguição aos judeus contada pelo autor foi a mais duradoura e mais abominável, responsabilizados pela morte de Cristo, eles foram acusados de dissídio e se tornaram objeto de desconfiança, inveja, desprezo dos cristãos. O anti-semitismo tomou uma dimensão sem precedentes. Muitas restrições lhes foram impostas. Existiram tributos específicos para eles. Eram proibidos de casar com cristãos e não podiam ter escravos ou empregados cristãos, ocupar cargos públicos, nem legar heranças ou construir sinagogas. Estavam sempre se defrontando com o dilema de escolher entre o batismo ou a morte. Rejeitados pelos cristãos, os judeus se recusavam a manter, com aqueles, uma vida em comum. O comportamento dos judeus produzia desconfiança e medo: eles se escondiam em ritos misteriosos, conservavam um estranho idioma, permaneciam apartados e formavam um grupo fechado. Os judeus acreditavam no Antigo Testamento e renegavam o Novo, que, segundo os cristãos, era o desfecho e a explicação do Antigo. Aos olhos da cristandade, constituíam mau exemplo para todos, principalmente para os pagãos que os cristãos buscavam atrair.

A partir do final do século XI, atendendo ao chamado da Igreja e alegando cumprir a vontade divina, grupos de peregrinos e soldados assolaram o norte da Europa, a caminho do Oriente, obrigando comunidades inteiras de judeus a escolher entre a morte e a conversão. Assassinatos em massa, em Worms, Neuss, Trier e outras localidades, respondiam às acusações de que judeus inimigos da fé matavam crianças. Milhões de judeus foram vítimas da ação dos cruzados. Na primeira cruzada, sofreram perseguições e foram submetidos a batismos forçados. O isolamento dos judeus, que os tornava cada vez mais vulneráveis as perseguições (...), ( LE GOFF.2007;128).
Além do mais o autor fala do movimento das cruzadas onde o crescimento populacional levou à ocupação de áreas ainda não utilizadas para plantio, como florestas e pântanos. Entretanto, a disponibilidade de terras nessas áreas era limitada. Além disso, a população se expandia em ritmo mais acelerado do que a produção. Dessa forma, crescia o número de pessoas que caíam na mendicância ou banditismo.
Ao mesmo tempo, os senhores feudais ampliaram as obrigações dos servos, o que levaram muitos destes a abandonar as terras em que viviam ou a serem expulsos delas. Tal situação começou a colocar em crise as relações servis que sustentavam a economia feudal. A crise atingiu não só os camponeses, mas também os nobres, que, para não fragmentar seus domínios, passaram a fazer uso do direito de primogenitura, pelo qual apenas o filho mais velho poderia herdar o feudo. Com isso, os filhos mais novos eram obrigados a procurar outros meios de sobrevivência. Jovens cavaleiros saíam então pelo mundo em busca de oportunidades: um casamento vantajoso, o seqüestro de alguém da alta nobreza para cobrar resgate. Tais condições, somadas ao espírito de aventura dos cavaleiros e às disputas territoriais, propiciaram um clima de constantes lutas entre a nobreza. Na tentativa de controlar a situação, no início d século XI o papa proclamou a Paz de Deus, pela qual os combates foram limitados a noventa dias por ano. Foi meio a essa situação que o papa Urbano II lançou seu apelo à cristandade, dando início às Cruzadas.
O saldo das Cruzadas para o Ocidente não foi tão animador quanto esperavam seus participantes. Ainda que tenham oferecido aos cavaleiros e aos camponeses do século XI uma saída para o excedente populacional, na prática seus resultados foram quase nulos. Na verdade, o Mediterrâneo nunca chegou a ser um “mar deserto”, fechado pelos muçulmanos, como se acreditou por um tempo. As cidades da península Itálica, por exemplo, mantiveram-se ativas durante a Idade Média e seu comércio com o Oriente sempre foi relativamente intenso. Da mesma forma, ocorriam intercâmbios culturais e econômicos entre cristãos e muçulmanos na península Ibérica. Seja como for, ao fundar reinos cristãos no Mediterrâneo oriental, os cruzados promoveram a expansão das sociedades européias e fizeram entrar em circulação na Europa produtos orientais, sobretudo especiarias, importadas por mercadores da península Itálica. Os saques realizados pelos cruzados nas cidades muçulmanas transferiram para a Europa grande quantidade de moedas, aumentando sua circulação no continente. Isso colaborou para que surgissem companhias mercantis, formadas pela associação de comerciantes, que investiam capital na compra de barcos e de mercadorias.
Com a reativação do comércio e das cidades a partir do século XI, expandiram-se a economia monetária e o mercado, fortalecendo a burguesia mercantil. Estimulados pela formação de um mercado consumidor, os senhores procuraram aumentar a produção de seus feudos. As relações servis entraram em crise. Muitos servos se tornaram livres e passaram a arrendar terras dos senhores com base em contratos. Outros migraram para as cidades, desligando-se das relações servis de produção. Com o desenvolvimento comercial, todo o sistema feudal entrava em crise.
De modo geral o livro compõe-se em uma verdadeira viagem ao gênese da Europa, a Idade Media, invadindo o imaginário e o tempo que constrói a historia sem deixar de obter em suas entrelinhas a busca da verdade.
















REFERÊNCIAS

FLORES, Juan Javier. “Introdução à Teologia Litúrgica”. Editora Paulinas. 2006.

LE GOFF, Jacques. “As raízes medievais da Europa.” Editora Vozes. 2007.

SPROUL, Robert Charles. “Filosofia para Iniciantes.” Editora Nova. 2002.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ponte do tempo

A ponte do Tempo

*Luis Ferreira

As palavras do nosso saudoso conterrâneo José Tribuzi Pinheiro Gomes, conhecidos por alguns como Bandeira tribuzzi, contruiu a maior estrada concecida até hoje em sua cidade natal, liganndo o passado e o futuro, imortaliando assim a cidade de São Luis com seu desejo vibrante de ler assim como ele memso falou : “Quero ler nas ruas, fontes, escadarias , torres e mirantes, igrejas e sobrados nas lentas ladeiras que sobem angustia sonhos do futuro e glórias do passado”. Entretanto o futuro hoje não é de sonhos e as glórias cada vez mais nos buracos.

Conhecida por muito como patrimônio cultural da humanidade a cidade de são Luis tem se transformando lentamente em ruínas sustentadas pelo descaso de gestores públicos transformando-a num imenso lixão. Observado todos os dias por quem passa pelo projeto reviver, pode testemunhar a falta de manutenção, falta de políticas publicas, os imensos buracos, casarões que faltam desabar em nossas cabeças, desta forma, com um grito revoltoso ecoa de uma pouca parcela ludovicense que luta para mudar esta situação. Entretanto o conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democratica, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas sim suas idéias econômicas. Vale ressaltar que a nossa democracia ludovicese é apenas um aparate de destaque para o imenso coronelismo resistente até hoje, uma democracia nascida nos berços da ditadura, uma política local que sempre se trata de um discurso geral soberbo que esta maquiada pela mídia, aonde chega a convencer outra parte da população em troca de um pão, neste caso festas e bebidas de graça.
A memória do povo maranhense está definhando ao poucos e de forma visível, a nossa construção imaterial dá lugar ao odores e ao risco de desabamento. Os casarões de São Luis garantem a continuidade do tempo e a manutenção da cultura, merecem ser respeitados e lembrados. Não sei se a boa cama e a boa mesa de nossos pseudo-políticos enfraquecem as pernas e lhe cegam os olhos que não os deixam perceber que o nosso produto turístico e econômico está prestes ao fim. Cada azulejo que cai, cada tijolo que se fraguimenta são perdas notórias da nossa cidadania. Próxima de seus 400 anos a ilha de Upau Açu. Comemora com luto a forma grotesca como é liderada. Não deixemos de lembrar, de nossas acomodações dos habitantes que por sua vez permanecem apáticos ao perceberem tudo e não enxergarem nada.
Nestes 400 anos a cidade esqueceu-se das palavras de Tribuzi, quem sabe elas não foram parar em qualquer buraco por aí! Ou então caiu junto com algum casarão, continuando assim apenas o que sobrou, um azulejo, longe de sua terra, chorando de angustia contrabandeado por algum turista.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dançar é viver


A vida é como uma dança; há momentos em que temos
De voltar atrás para corrigimos os mesmos passos,
Há momentos que caímos e nos levantamos rapidamente,
Para não perdemos o compasso.

Dançar é como a vida que flui no espaço, flutuar com os pés no chão.
Romper as muralhas do intangível,
Transmitir pelo corpo, sentimentos mais profundos da alma
Viver transferindo os desejos da emoção.

A vida requer pequenos passos, grandes saltos,
A dança sugere paciência e concentração.
Dançando se vive as paginas de um espetáculo,
Dançar suporta a vida de nossos partos.

Contemplar a magia da dança é viver como um mudo no silencio dos falantes,
Muito mais que jogo ou olhar;
Viver sem medo de errar.
Tendo a certeza que a musica nunca vai acabar.



Augusto Ferreira

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A CRISE DO ROMANCE: VISÃO DE WALTER BENJAMIN




No livro Berlim Alexanderplatz (1929), Alfred Döblin narra a história de Franz Biberkopf, um ex-presidiário que tenta ser “decente”. A obra é uma epopéia urbana, em que são relatados os golpes sofridos pela personagem e, em conseqüência deles, suas desilusões. Biberkopf vai descobrindo que não é fácil atingir seu objetivo; a maldade dos inimigos chega ao ponto de ele ser atirado para fora de um carro em movimento e, por causa disso, perder o braço direito.

Döblin poderia contar essa história utilizando uma técnica tradicional, tal como a empregada nos romances do século XIX. No entanto, ele opta por uma linguagem que representa fragmentos de episódios. Compete ao leitor reunir os “estilhaços” em que se apresenta a narrativa, se quiser compor uma paráfrase. De qualquer modo, sente-se que a linearidade e a coesão das fábulas estão definitivamente perdidas. Assim como um vaso colado não é o mesmo de antes, certas narrativas trazem as marcas da perda da totalidade.

O narrador de Berlim Alexanderplatz pode ser visto como a personificação de uma sensibilidade atenta ao pulsar de uma realidade complexa e, no caso da Alemanha, durante a frágil República de Weimar, anunciadora da catástrofe nazista. Esse narrador luta por estar em toda a parte, dentro e fora da consciência das personagens; percorre as ruas, os bares e o matadouro; revisita o texto bíblico e a tradição oral; constata a presença da morte preparando o sacrifício (em vários pontos da história, aparece, como um refrão, a frase: “Ceifeiro é, de morte chamada”); em suma, empenha-se vertiginosamente pelo máximo de onisciência possível.

Embora o exercício da sabedoria narrativa, tal como se apresentava nas narrativas tradicionais, tenha se tornado impossível devido à privação moderna da “faculdade de intercambiar experiências”, a narração de Berlim Alexanderplatz empreende um retorno ao relato épico, para contar a história de Franz Biberkopf. Mas, neste caso, trata-se de uma narrativa que expõe suas raízes urbanas, fincadas na Zona Leste da Berlim dos anos 1920. Desse modo, o ponto de vista do narrador (ou sua multiplicidade de pontos de vista) posiciona-se no lado de dentro do setor proletário e pequeno burguês da cidade. O recurso de estilo adotado para a representação estética desse contexto foi a montagem, tal como assinala Walter Benjamin, em “A crise do romance”. Mas o “sábio” a que Benjamin se refere não é a personagem épica; é a desencantada personagem romanesca, “amadurecida”, detentora da “sabedoria” burguesa; o herói burguês convive harmoniosamente com a miséria. Enquanto sentia a “fome de destino”, Franz foi punido severamente. No final do livro vamos encontrá-lo resignado, já moldado pelas forças do destino urbano e gozando da melhor vida que a sua condição lhe permitiria: agora ele é “auxiliar de porteiro numa fábrica de média dimensão”.
Sendo assim, a montagem döbliana, embora tenha resgatado a narrativa épica, não tem o caráter passivo do poeta que apanha conchas na praia; ela é técnica de enfrentamento, pois, levando o mundo externo a se manifestar, obriga-o a revelar toda a iniqüidade que lhe é subjacente. Portanto, a força de representação dessa epopéia moderna, que é Berlim Alexanderplatz, provém justamente de sua forma: por meio da montagem, Döblin manifestou profunda sensibilidade e consciência de determinada realidade urbana — em que já se fazia sentir o perigo da perversão coletiva, fomentada pelo nazismo.

Solo "Enigma" - Escritos do intérprete Luís Ferreira sobre o seu processo criativo.




Assim como o corpo é composto de órgãos, músculos, ossos, pele e poros, um casarão é composto por janelas, portas, mirantes, escadarias, corredores e azulejos, um verdadeiro labirinto.
INTRODUÇÃO


Partindo do pressuposto da depredação e deterioração dos casarões de São Luis, que há mais de quinze anos é considerada como patrimônio histórico cultural da humanidade, o núcleo atmosfera de dança-teatro, mostra sua inquietação na apresentação de o labirinto dos poros onde a relação corpo, texto, imagens e objeto tornam-se presentes na co-relação entres esses casarões, paradoxo é afirmar que com grande acervo arquitetônico, esse tesouro histórico se ver esquecido ao tempo, nesta luta o intuito do núcleo é buscar do público ludovicense a reflexão de que enquanto esses casarões estão caindo muitos grupos artistas estão necessitando de seu próprio espaço, na solução em que a melhor política é a ocupação do mesmo.



“A explicação do enigma é repetição do próprio enigma”( Clarice Lispector )
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." (Clarice Lispector)



NA PARTITURA DE “ENIGMA” SOB A DIREÇÃO DE LEÔNIDAS PORTELLA, AS ETAPAS FORAM:

• A escolha da escritora Clarice Lispector ditada pelo próprio diretor e a explicação do objetivo do espetáculo de um modo geral
• Pesquisa referente a escritora
• A escolha da musica (Toledo da Coletânea Solares-artista Corciolli) pelo interprete, fazendo uma composição de movimento a partir do estimulo musical, com a ajuda de alguns componentes presentes.
• A leitura de imagens que foram criadas a partir deste estimulo musical
• O estabelecimento de um conflito central relacionando o texto ao contexto com o objetivo de transformar sentimentalmente o publico que assiste
• A interação de movimentos com outros componentes do núcleo foi matéria primordial na construção da partitura.
• Construção de movimentos que surgiram de jogos teatrais, como vários quadrados de fitas feitos no chão.



IMAGENS UTILIZADAS NA CONTRUÇÃO DO SOLO:


• “Em um bosque uma mulher de vestido vermelho olhando para toda a família, logo em seguida aparece um homem e tenta agarra - lá,fadas coloridas aparecem em sua volta.Retorna correndo à sua casa, abraça uma criança e arranha na cabeça e a mesma desaparece.Desesperada leva a mão ao rosto e arranca um dos olhos.Depois percebe que estava dormindo e levanta da cama.As fadas tornam-se más. ( Imagem de Sarah Reis)
• Ver uma mulher sofrendo( sentimentos) Supera este sofrimento e abraça o mundo.(Imagem de Cleyce Colins)
• Uma mulher parada no meio da estrada com dois caminhos se seguisse pelo primeiro saberia que iria viver com os mesmo sentimentos, a mesma vida. Se fosse pelo segundo sentiria os sentimentos do mundo, uma nova vida,mas ela não escolheu nenhum dos dois.( Imagem de Luriana Barros)
• Mulher de vestido em passagem de um mundo, mas tinha que deixar o mundo de antes, isto lhe gerava uma dor, sofrimento até se libertar. Ao ver este outro mundo lhe deixou muito fraca. (Marlon Anderson)


EXPLORAÇÃO DE IMAGENS



Não utilizei uma imagem específica na construção do solo, todas foram de suma importância, cada frase ou termo grifando reflete-se na elaboração do mesmo.
Com uma leitura bem atenta as imagens observamos que todas estão interligadas de uma forma em que a separação entre elas torna-se desafiador no que desrespeito as manifestações do escrito de Lispector.
A imagem dos dois caminhos, os diversos mundo, a criação, sofrimento e sentimentos, todas se condensaram naturalmente em uma amálgama de sentidos e ordens artísticas que não poderá se pensar em uma multiplicidade de influencias separada.



UMA VIDA QUE SE ESCREVE



Mistério, a essência de um mistério campo de retratação da filosofia enigmática do homem, esta é Clarice situada de forma presente em seus escritos deixou para o mundo uma apaixonante história de vida, cheia de altos e baixos, de personalidade forte, rodeada por diversos admiradores, foi o inicio e a continuação da literatura brasileira, onde nada decifra o enigma que Clarice foi.
Impossível é separar a vida da autora de sua obra, tudo está interligado nada foi de simples acaso todas suas frases de forte impacto, retratavam sua infância sofrida, mas cheias de vitorias, seu caráter materno, a preocupação com o nordestino e entre outros relatos que se tornaram presente em sua vida. Rainha da epfania, eu ao ler seus desfechos literários, pensei que não seria capaz por demonstrar através de movimentos corpóreos a retratação de sua figura importante para todos nós. Optei pela vida da mesma como base e inicio, logo mais o mesmo inicio serviu de iniciativa na definição de alguns textos como o conto “Amor”, a poesia de Carlos Drummond de Andrade “Visão de Clarice Lispector” e a obra “A hora da estrela” textos que expressão sentimentos retratados aos fatos da vida, um simples esbarrão que pode trazer a lembrança acontecimentos de uma vida inteira, um mascar de chiclete de um comum cego sentado no banco do bonde pode trazer átona sentimentos nunca antes revelados.
Não existe uma ou duas, são inúmeras em uma, em cada pagina uma nova faceta e revelada ao leitor, novos amores são descobertos e ficam-se perguntas ao vento; será ou não será a Sr ª Lispector querendo se esconder por detrais de suas personagens que mais parecem alto retrato de sua vida? Ou será o fruto dos momentos de conflito entre ela e sua inseparável amiga: a máquina de escrever? No mundo nada responde o porquê da questão basta sentir e tudo virá com bombardeios de inquietação da expressividade de Clarice. Como colocar dentro de uma sala as paixões e dores desta mulher? Como sentir seus tormentos? E sua agonia no momento da queimadura no braço direito? Se eu não me entregar e me atirar em seus braços.
O som da máquina fala mais alto, diz o que tem de ser dito; - “ Quando não escrevo,estou morta”.Morre uma,duas, três, quantas vezes for possível até não viver mais, entretanto morre para escrever o que tem que ser escrito; -“ Quando eu não gosto,eu rasgo... Eu rasgo... rasgo até não gostar mais, rasgo uma, duas, três quantas vezes for possível até não rasgar mais ver que posso fazer o novo chegar a sua perfeição.
Labirinto dos poros, para mim um desafio, uma linha a ser quebrado, sair do normal e ficar inquieto com perguntas intrigantes na mente refletindo-se em repetições, em quedas, saltos e momentos de encontro. Minha vida se coincide com a de Clarice ao rasgar as folhas. Será coincidência?Creio que não, isto é, apenas a presença do ato.